domingo, 7 de abril de 2019

YVY MARANE’Ỹ: A TERRA SEM MALES.


O mito da Terra sem Males é uma história sagrada, uma narrativa simbólica, verdade transmitida oralmente por um grupo e considerada verdade por ele. Sua narrativa revela os paradigmas humanos.
A pesquisadora Joana D’Arc Rocha Portella (2010) escreveu uma dissertação na qual demonstrou que a rememoração do mito traduz a ideia de que aquele grupo ainda é capaz de repetir o que os Deuses fizeram outrora. Para realizar um ritual, o mito conta como ele surgiu pela primeira vez.
Surpreendemente, a simbologia da terra sem males reapareceu na Reserva Indígena de Dourados (MS) como tema e inspiração da Semana dos Povos Indígenas de 2019 e seus desdobramentos nas áreas da saúde, educação e agricultura.
O mito da terra sem males ganha atualidade, pois em muitas comunidades guarani é a referência nos processos de demarcação das terras indígenas. O acervo mitológico Guarani é extremamente rico e complexo, pois incorporam nas suas narrativas interpretações dos acontecimentos vividos ao longo do tempo. Os mitos inspiram secularmente seu cotidiano e fundamentam seu pensamento e ações.
O mito da Terra sem Mal é um elemento simbólico guarani que foi registrado na literatura desde 1515, um dos primeiros documentos tipográficos sobre o Brasil. A narrativa está relacionada aos motivos das correntes migratórias em direção à terra prometida, aquela onde a roça cresce magicamente com reza, do mesmo modo como fez Jakairá, a divindade da fertilidade e da primavera, durante a criação da segunda terra. Este mito aparece em mutias culturas ameríndias, mas entre os Guarani ocupou lugar central em conexão com o mito da destruição iminente do mundo.
A concepção da terra sem males está ligada ao conceito Aguyjê, bem-aventurança, perfeição, madurez e vitória. Metáfora fundamental para o paraíso e objetivo da existência humana para um guarani. Esta realidade foi atingida pediante a prática das tradições que ascenderam aos patamares elevados, yváy, sem passar pela morte. Chegar ao Aguyjê depende do cumprimento das prescrições religiosas, míticas e mágicas. Este lugar ficaria numa ilha distante no mioe de um longínquo oceano, onde se chega com o auxílio de uma grande corda ou outros meios. Lá desfrutarão da comunhão espiritual com as divindades, seus antepassados, Ypy kuéra, segundo Egon Schaden (1962, p. 164).
Esta terra sem males é marcada pela abundância de caça, fruta e lavoura, pois segundo explicação do professor kaiowá Eliel Benites (Tekoha Te’ýikuê, Caarapó, MS), os animais, os remédios e as frutas não desaparecem, mas são recolhidos pelos seus donos em outros patamares (yváy) onde podem ser encontrados ou podem voltar mediante as rezas dos nhanderu. Este paraíso, ideal de cultura pelos Guarani, é o lugar onde as atividades tradicionais continuam sendo executadas como condição para a vida feliz. Todos os elementos exógenos estão banidos e a lealdade à cultura tradicional ganha sentido religioso. Assim, a terra sem males é a rejeição definitiva do paradigma colonizador que produziu desintegração cultural e desorganização social.
De acordo com Aldo Litaiff, o mito Yvy marane’ỹ é uma expressão adotada a partir do contato, e especialmente da experiência jesuíta, sendo então o resultado da interpretação Guarani, e da fusão de um conceito cristão ‘paraíso’ com a estrutura ideológica indígena pré-existente.
O conceito de Terra sem Mal é referência geográfica ao espaço ecológico, araikê, anterior à conquista europeia e que existe próximo ao sol nacente, Kuarahy Resẽ, onde vivem Nhande Ramõi, Nhanderu e onde esteve Pa’í kuará. Trata-se de uma filosofia da história guarani na qual os guarani se reapropriam de seu destino interrompido pelo processo de colonização.

REFERÊNCIAS E FONTES:
BENITES, Eliel. Aguyjê. Caarapó, 2019.
LITAIFF, A. Mitos e práticas entre os índios Guaranis. Revista Tellus, ano 8, n. 14, abr. 2008. Campo Grande – MS. Ed. UCDB Tellus.
PORTELLA, Joana D’Arc Rocha. Terra sem Mal. Santa Maria: UFSM, 2010.
SCHADEN, Egon. Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1962.



NOTAS:
1. Pesquisa e organização: Neimar Machado de Sousa, doutor em história da educação pela UFSCar e pesquisador na FAIND/UFGD. Karaí Nhanderovaigua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com
2. A grafia adotada para as palavras tupi e guarani seguem a forma adotada pelas fontes consultadas, acrescidas de acentuação para facilitar a pronúncia.
3. O artigo tem finalidade educacional e formato adaptado às mídias sociais.
4. Metadados: Yvy Marane’y, Terra sem Males, Jakairá, aguyjê, yváy. Imagens: JORGE, Ivan Antonio. Yvy Marane’y. Dourados, 2019;

sábado, 6 de abril de 2019

AÓ-AÓ: O GUARDIÃO DAS MONTANHAS.


Aó-Aó: o guardião das montanhas.

O Aó-aó é um animal híbrido da zoologia fantástica do Paraguai. A iconografia o retrata com aparência de ovelha, cabeça de Javali, grande e muito feroz. Vive em numerosas manadas pelas montanhas.
O Aó-aó, sexto filho de Taú e Keraná, possui a faculdade de reproduzir-se sozinho e vive em grandes manadas. Alimenta-se de carne humana e ovelhas, parecendo com um carneiro macho, mas com instintos mais sanguinários. É perseguido pelos capatazes das fazendas. Este ser persegue as pessoas que se aventuram pelas matas e a única maneira de escapar de seus ataques é subindo numa palmeira pindó, considerada árvore sagrada, pois foi dada por Tupã a Nhanderu Pavê e salvou a humanidade do dilúvio.
Quando os perseguidos pelo Aó-aó sobem em outra árvore, a manada a derruba e devora a sua vítima. É considerado uma divindade da fecundidade pela sua capacidade de reproduzir-se, sendo guardião das montanhas.
Aó-aó é canibal e dotado de poderosas unhas com as quais devora qualquer um em seu caminho. Não é possível fugir dele nem sob a terra nem sobre as árvores. A manada dos Aó-aó rodeiam as suas vítimas sob os gritos: aó-aó-aó-aó ! Cavam as raízes das árvores e as derrubam para devorar as vítimas.
O pindó, conforme relato do poeta paraguaio Narciso Colmán (1937), é a única árvore respeitada pelo Aó-aó por ser a madeira sagrada do calvário e a planta que alimentou o menino Jesus no caminho para o Egito.
Aó-aó é uma das estrelas da constelação das Plêiades, Eichu, para onde ascendeu após ser queimado Tumé Arandu na caverna de seu irmão Tejú-jaguá.
Abaixo uma versão em língua guarani do mito Aó-aó (MARSAL, 2010).

AO AO REHEGUA
Ao Aópe ndajeko Mba'epochy voi ombou raka’e yvy ape ári, ha upéicha rupi ha’e ndaikatúi voi heko porãvo. Hague vai guasu ndaje, ojogua nunga ovechápe, ha ipyapẽ akua; ipuku voi ku cháiraicha la ipyapé. Okaru ndaje kritiáno ro'óre, ha la oporojuka haguã oiporu ipyapẽ, upévape omongu'i ojuhúva hapépe. Hasy voi jajesalva haguã ichugui, otopa porãrõ ñanderehe. Rei voi jaikese yvyguãpe terã jajupise yvate mba'e chugui. Ka’aguy mbytérente voi ndaje ovy’a, ha ha’e oikohápe ndoikéi voi tymba ka’aguykuéra. Ha sapy'ánte, iñembyahyipa jave ichugui ita'yrakuéra ndaje, osẽmbaite hikuái tekoha rehe ohekávo ho’u va’erã. Upéicha jave, máva ojuhu raẽva rapykuérintema ojepota hikuái, opersegi omokane’õ meve. Ha péva ojupiséramo chuguikuéra yvyra rak-are, lo Ao Ao oñemongora hese ha sapukái pópe ojo'óma la yvyra máta, ha sapy'aitépe ombohapo soro. Ha ho'ávo ikorapekuéra la próhimo, ojopãma hikuái ichupe ha pya'e pya'e oñomboja’opámane katu hese hikuái. Ha upéicha ãga ojapopa porã rire la ikalaguíchi hikuái, oje'ói jey hekohapekuéra, okañymba.
Ao Aógui ndaje ikatu jajesalva jajupíramo chugui pindo mátare añoite. Oikéramo pindo guýpe ndaje, ikangypáma, ndaikatuvéima ojo’o. Pe yvyra ningo tuicha ikurundu, ha oime mba'érepa: ymaite Ñandejára oikovépe voi ndaje heta mba'épe ideprovécho raka'e chupe. Aipo Niño Jesú ojepersegíramo guare ndaje, Tupãsy omongaru raka'e chupe pindo aju rehe. Ha upéi Ñandejára ojejukátaramo guare, pe Semana Santa oñepyrũvo, pindo rogue reve avei oñehuguaitĩ ichupe. Ha ko’ãgaite peve ñande jaraha gueteri pindo ru’ãngue tupaópe, jahechauka haguã ñamomba’e guasuha Ñandejára manongue. Umíva reheko pindo karai ipu'aka voínte mba'epochy rehe.

REFERÊNCIAS E FONTES:
Colmán, Narciso Rosicrán. Ñande Ypy Kuéra (nossos antepassados).  San Lorenzo: Imprenta y Editorial Guarani, 1937.
MARSAL, Carlos Villagra (org). MITOS Y LEYENDAS DEL PARAGUAY MESTIZO. Asunción: Diario Popular, 2010.


notas:
1. Pesquisa e organização: Neimar Machado de Sousa, doutor em história da educação pela UFSCar e pesquisador na FAIND/UFGD. Karaí Nhanderovaigua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com
2. A grafia adotada para as palavras em língua guarani seguem a adotada nas bibliografias indicadas e pesquisadas, acrescidas de acentuação para facilitar a pronúncia aos não-falantes de guarani.
3. O artigo tem finalidade educacional e formato adaptado às mídias sociais.
4. Metadados: Aó-aó, Porãsy, Taú, Keraná. Imagens: Mi.toys, Folklore Paraguayo, Artesanías.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

YAGUARETÊ ABÁ: O HOMEM-ONÇA.


Yaguaretê aBá: o homem-onça.
Sousa, N.M.[1]
Entre os mitos difundidos entre os falantes da língua guarani, o Yaguaretê Abá é muito popular na Argentina, na região de Corrientes e Córdoba. Trata-se da história do homem-onça que devorava os demais.
A história guarani do homem-onça á análoga à teoria antropológica de Thomas Hobbes, o homem-lobo, aquele que devora o próprio homem. Thomas Hobbes foi um filósofo político da modernidade arcaica que teorizou a respeito do estado de natureza, sem o Estado, no qual a índole negativa do gênero humano seria responsável pela violência generalizada resumida na expressão latina: homo homini lupus, o homem é o lobo do próprio homem. O remédio contra a violência autodestrutiva seria a abdicação de parte das liberdades individuais em nome de uma entidade que reprimiria o impulso autodestrutivo. Este impulso destrutivo e devorador é relatado também no Mito dos Gêmeos quando as onças, jaguaretê kuéry, devoram a mãe do sol, kuarahy, e da lua, jasy, quando fazia sua jornada em buca do pai dos meninos, Nhanderu.
O mito do Jaguaretê Avá foi pesquisado também pelo professor Kaiowá João Machado, morador da aldeia Bororó em Dourados, Mato Grosso do Sul. Ele é formado em letras e mestre em linguística pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Segundo o pesquisador, este homem-bicho tinha o hábito de aparecer nas estradas à noite, por onde trafegavam viajantes e carreteiros. De acordo com seus informantes indígenas, era um índio de má índole que vivia junto à sua família, mas o demônio Anháy instigou-lhe a matar sua mãe, pai e os irmãos. Sem nenhum parente, passou a viver solitário nas florestas e morrarias, amaldiçoado e condenado a comer carne humana.
A presença do Jaguaretê Avá também foi confirmada nas matas de Mato Grosso do Sul pelo sr. Antonio Guarani, segundo seu sobrinho, Jorge Sanches. Conforme o relato de seu tio, um homem foi avistado durante uma caçada a porcos do mato com flechas na mão. Foi avistado mais de uma vez no meio da mata. Mais adiante, o sr. Antonio, ao ouvir o grunhido de um dos porcos, foi verificar e avistou o homem, metamorfoseado em onça, devorando a caça.
Os mitos, segundo o professor José Ribamar Bessa Freire (UERJ), são narrativas de cunho pedagógico e histórico que guardam, nas sociedades de tradição oral, memórias sociais históricas. Para fundamentar empiricamente a afirmação acima, citamos outras aparições do Yaguaretê Abá, considerado um bruxo que se transforma em onça com uma capa do coro deste animal e depois volta à sua forma humana. Durante o tempo em que está na forma de onça, devora homens e animais.
Os índios guarani da Aldeia Potrero Gasu, em Paranhos, denunciaram em 2016 a aparição de homens-fera, que à noite metamorfosearam-se em pistoleiros para invadir as casas de velhos, aterrorizando-os, queimam casas de famílias, materiais didáticos de crianças, e que, amaldiçoados, vivem escondidos nas matas e cabanas da fronteira entre Paranhos e Ypehun, no Paraguai. Por que fazem isto? É difícil responder, mas suponho que a razão é aterrorizar os Guarani e Kaiowá que queiram retornar aos seus antigos territórios, de onde foram removidos décadas atrás e já foram reconhecidos como terra de ocupação tradicional.
Outro lugar onde o Jaguarete Avá foi visto recentemente foi no tekoha Te’ýikuê, na cidade de Caarapó, MS. Ali o homem-onça foi visto dirigindo trator durante o dia e portando armas à noite, rondando e ameaçando moradores para não saírem dos limites da reserva em direção às antigas aldeias de onde foram expulsos.
O Jaguaretê Avá não é um mito, mas uma realidade histórica que devora os Guarani e Kaiowá desde o período colonial, quando os bandeirantes, uma espécia de homem-onça de São Paulo, atacavam os Guarani-Itatim e os levavam às centenas como escravos para as fazendas de Sorocoba e Santo André.

Interrogado sobre o assunto, Thomas Hobbes respondeu dizendo: "Onde o estado não está presente, garantindo direitos, ele é substituído pelo Jaguaretê Avá, que ao fim devorará a todos, pois seu apetite é insaciável", advertiu o filósofo.

REFERÊNCIAS E FONTES:
Colmán, Narcizo R. Ñande Ypy Kuéra.  San Lorenzo: Imprenta y Editorial Guarani, 1937.
MACHADO, João. Jaguaretê Avá. Aldeia Bororó: Relato oral, 2014.
SANCHES, Jorge. Jaguaretê Avá. Dourados: Relato oral, 2019.

IMAGENS:
UFF. Jaguaretê Avá. Rio de Janeiro: Departamento de Artes, 2019.
MITOS Y LEYENDAS. Yaguarete Abá. Argentina, 2019.





[1] Pesquisa e organização. Doutor em história da educação pela UFSCar. Karai Nhanderova’igua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com

quarta-feira, 3 de abril de 2019

JAPEUSA: O CARANGUEJO.

japeusa: o caranguejo.
Sousa, N.M.[1]
Japeusa era um filho desobediente que fazia tudo ao contrário, na mitologia guarani do Paraguai. Envenenou por acidente sua irmã Iracema e por isso se suicidou afogado. Seu corpo foi transformado em caranguejo, caminhando sempre para trás.
De acordo com a narrativa registrada pelo poeta paraguaio Colman (1937), Tupã é o Deus supremo dos guarani, divindade que criou a luz e o universo. Sua morada é Kuarahy, o sol. Contraiu núpcias com Arasy, consagrada mãe do céu e fixa sua morada na lua, Jasy. Foi tupã quem criou os Guarani.
Ao criar a terra, deixou dois espíritos para orientar o caminho de todos: Angatupyry, o espírito do bem, e Tau, o espíritu do mal. Rupave e Sypave tiveram três filhos e muitas filhas: Tume Arandu, grande sábio e profeta guarani, pai da sabedoria, inspirado no céu, também conhecido como Pa’i Sume; Marangatu: virtuoso, bondoso, pai de Keraná, a deusa de sonho e filha mimada; Japeusa, que nasceu em pé e filha desobediente, pois fazia tudo ao contrário. Japeusa passou a ser desprezada pela família por ter envenenado por engano sua irmã, Iracema. Despois deste fato, sucicou-se afogando-se e seu corpo se transformou num caranguejo que anda sempre para trás.
Rupavê e Sypavê começaram a viver na terra, na colina Areguá. Amavam-se muito e se multiplicaram sob o olhar protetor de Tupã. Não conheciam a dor, nem a fome, nem a angústia. Iracema foi a última filha, deusa do murmúrio das águas, deusa do Mbaraká que morreu prematuramente pela imprudência de seu irmão Japeusá.  Outras das irmãs foi Porãsy, mãe da beleza; Guarasyáva, exímia nadadora; Tupinambá, de força física incomparável.
Durante muitos anos, a família viveu satisfeita na colina Areguá, onde tiveram seus filhos. Uma noite, Iracema cantou muito e amanheceu enferma, sem voz. A mãe, Sypavê, chamou seu filho Japeusa para buscar com urgência ervas para tratá-la. Pediu que trouxesse agrial e casca de ingá, que seriam cozidas com sal extraído do brejo.
O chá seria servido no dia seguinte para Iracema sob a forma de gargarejo, mas Japeusa fez tudo errado. Colheu pimentões ardentes, folhas de ka’atai, urtiga e duas laranjas azedas com os quais preparou uma bebida e deu para a irmã beber. Não passou meia hora, a garganta de Iracema inchou e se irritou de tal maneira que interrompeu completamente a respiração. Ao meio dia, a jovem curvou-se como uma flor que murcha e entregou seu espírito à Tupã em meio à grande tristeza. Em sua tribo ficou apenas a lembrança do seu perfume. Iracema nunca se casou e dedicava-se somente à música e ao canto.
A notícia de sua morte trágica trouxe pessoas de muito longe que trouxeram muitos presentes, a maioria para comer. Depoisitavam os presentes em uma urna de barro. Depositaram sobre seu corpo muitas ervas medicinais, esperando que voltasse à vida, pois até então não conheciam a morte. Um dos presentes discursou: “ainda que sejamos testemunhas de sua morte, nos recusamos a aceitá-la, pois Iracema continua entre nós.”
Seu irmão mais velho, Tumé Arandu, disse que deveriam deixar seu corpo num lugar adequado, pois o corpo sem o alento ficará distante de nós, mas seu espírito ficará por perto. Tupã ordenou que fosse dada sepultura na terra, local para onde todos a seguiriam na hora da morte.
A sabedoria de Tupã concebeu nosso corpo com órgãos e a cada um legou uma necessidade. A boca pede de comer e beber o dia todo. Os olhos pedem a 
contemplação das paisagens e da beleza do mundo. O nariz clama pelos bons odores. Os ouvidos reclaram as doces harmonias, cantos e acordes do violão. Até os desejos sexuais têm a função de evitar a solidão. O mesmo ocorre com a terra, um ser que vive e se alimenta das plantas e do nosso corpo. Tudo o que vive em sua superfício, cedo ou tarde, vai para o interior de suas entranhas. Com o passar do tempo ninguém mais se lembrará de vocês, mas quando a terra tiver se nutrido de seus corpos, o indivíduo morto experimentará uma outra forma de vida, sentindo as emoções que a mãe terra experimenta, pois é um ser com vida e movimento. A água é seu sangue e o ar seu alento. A vegetação é seu pelo e as videiras são os intestinos dos bosques.

Japeusa, disse seu irmão Tumé Arandu, cometeu um erro por ignorância. Obedeceu ao seu próprio temperamento e desígnio traçado por Tupã. É preciso ter clemência dele.

REFERÊNCIAS E FONTES:
Colmán, Narcizo R. Ñande Ypy Kuéra.  San Lorenzo: Imprenta y Editorial Guarani, 1937.

IMAGENS:
Hillewaert, Hans. Marbled Swimming Crab. Bélgica, 2005.




[1] Pesquisa e organização. Doutor em história da educação pela UFSCar. Karai Nhanderova’igua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com 

terça-feira, 2 de abril de 2019

YVYJÁ RUVICHÁ E JEGUAKAREI: MORTE E ASSASSINATO.


yvyjÁ ruvichÁ e JEGUAKAREI: MORTE E ASSASSINATO.
Sousa, N.M.[1]
A narrativa mítica é uma hermenêutica dos fenômenos visíveis, invisíveis, pregressos, atuais e futuros. Os personagens de hoje foram escolhidos como interpretação do que não pode ser interpretado: a morte de oito mil indígenas durante a ditadura militar (1964-1985).
Escolhemos falar sobre isto porque suas memórias não estão contentes e clamam aos carrascos o que lhes é devido para que tenham descanso: a justiça. Segundo a explicação dos kaiowá Nhandesy Alda e Nhanderu Getúlio, da aldeia Jaguapiru, Dourados, MS, a reza feita antes de sepultar uma pessoa é dirigida a Yvyjá Ruvichá, o cacique, chefe da cobra-cega ou cobra de duas cabeças. Este ser habita os subterrâneos e recebe o corpo dos mortos. Yvyjá significa o dono ou guardião da terra, sendo o nome religioso de Evo’i Guasu, verme grande.
Trata-se de uma sub-ordem distinta das serpentes, mbói, e dos répteis, tejú, com designações em língua tupi e portuguesa: ibicara, ibijara, licranço, mãe-de-saúva, rei-das-formigas e ubijara. Este animal cava seus próprios túneis com a própria cabeça em movimentos laterais. Tem hábitos subterrâneos, é carnívoro, alimenta-se de pequenos insetos que penetram em seus túneis, e também caça na superfície.
De acordo com o mby’a Cantalício (CADOGAN, 1959, p. 62), da Aldeia Yvy Pytã, se a cobra-cega, Evo’i Guasu, aparece na casa ela vem para anunciar desgraças para quem mora no lugar. Quando isto ocorre deve ser morta e seu corpo lançado na direção do sol ponte, kuarahy reikê, para que nada aconteça. Foi Nhanderu Mirî, ou Jakairá quem criou a segunda terra, o Tatu e a Cobra-cega, deixando-a como dono da terra.
Xiru Jeguakarei é o nome dado ao espaço-tempo do assassino. Montoya (1639) esclarece que o sufixo rei relaciona-se a asco, podridão, inutilidade. Assim é o termo usado para assassino na língua guarani, é o homem ou mulher cuja humanidade se corrompeu. O canto de jeguakarei é proibido de executar no terreiro da casa e em qualquer lugar público da aldeia, pois provoca conflitos, suicídios e homicídios, desentendimento entre mulher e homem, desestruturando a vida familiar. Somente pode ser cantado em local isolado e depois fazer mboro’y, para anular seu efeito e não causar cobiça ou inveja.
Os discursos que negam a tortura e elogiam torturadores e assassinos, jeguakarei, causam novas desgraças, pois estimulam a violência. Nhanderu nos proteja dos portadores dos males, kavajuvevê, com o mboro’y.

REFERÊNCIAS E FONTES:
SILVA, Alda. Nhandesy Kaiowá. Aldeia Jaguapiru, 2019.
JUCA, Getúlio. Nhanderu Kaiowá. Aldeia Jaguapiru, 2019.
CADOGAN, León. Mainomby Reko Ypykue: Ayvu Rapyta. São Paulo: USP, 1959.
Montoya, Antonio Ruiz de. Tesoro de la Lengua Guaraní. Madrid, 1639.

IMAGENS:
ANFISBENA. Educalingo. Portugal, 2019.




[1] Pesquisa e organização. Doutor em história da educação pela UFSCar. Karai Nhanderova’igua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com

segunda-feira, 1 de abril de 2019

AVARENDY’I: O JASY JATERÊ.


avaRendy’i: o jasy jaterê.
Sousa, N.M.[1]
Uma narrativa mítica é uma espécie de protótipo que não se encerra num só tempo e lugar, pois é anterior à escrita e segue além dela. O mito Jasy jaterê é um destes casos. Outro nome pelo qual é conhecido é Avarendy’i, descendente da lua, Jasy, seu fragmento.
Entre os Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul, a etnografias registram a dualidade de gênero para a lua, ora masculina ora feminina, explicação para sua superfície marcada, marca da menstruação, ou mulher marcada pelo pai com leite de mamão para não despertar olhares alheios. A dualidade de gênero lunar é mencionada pelas pesquisadoras Granciela Chamorro (2008) e Lauriene Seraguza (2013).
Avarendy’i, indiozinho resplandecente na língua guarani, ou saci, é um ser que dificulta os trabalhos domésticos cotidianos, apaga o fogo, queima alimentos, espanta o gato e perturba os viajantes solitários, esclarece Câmara Cascudo (1954).
Segundo a professora Jacy Guarani da aldeia Yvykurusu/Takuaraty, em Paranhos, MS, entrevistada por Seraguza (2013), a lenda difundida no Paraguai com o nome de Jasy Jaterê se assemelha a outra narrativa conhecida na sua aldeia de um “menino loiro, branco, portador de duas pernas e que carrega consigo um bastão”. O Saci, Jasy Jatere ou Xanxin é mencionado também por Egon Schaden (1998, p.157), sendo uma espécie de “deus”, protetor das matas, florestas, animais e crianças.
Jasy, para subir aos céus, a morada dos pais, Nhanderu e Nhandesy, impôs ao irmão maior, Kuarahy, Nhanderyque’y, que só o seguirá se com ele forem todas as mulheres da terra. O ciclo biológico feminino é lunar e sua manifestação. Este poder de atração de Jasy sobre as mulheres é compartilhado por Jasy Jaterê, sua manifestação terrena.
O parentesco de Avarendy’i pode esclarecer um pouco de sua personalidade, pois é a origem de seu nome verdadeiro, lugar de onde veio seu Ayvu. Ele é neto de Mba’ekuaa, filho de Jasy e sobrinho de Anhã. Jasy Jaterê se manifesta na vida das mulheres de várias maneiras, seja engravidando, perseguindo ou provendo suas necessidades. Seu papel se relaciona com a constituição do corpo e concepção da pessoa, esclarece a antropóloga Lauriene Seraguza (2013).
Segundo Julinha Guarani, “os brasileiros é que inventaram isso dele ter uma perna só”. Esta distinção narrativa é um marcador identitário entre os guarani (oréva) e os demais (nhandéva). O bastão mágico de Jasy Jaterê é também representado como uma simples taquara, um bastão de ritmo, veículo portador de humanidade tomado pelos homens à natureza, de origem, mas não mais da mata.
Aos céticos que duvidam das ações de Jasy Jaterê, lembramos que o jornal Dourados News registrou duas de suas travessuras. A ele foram atribuídos dois raptos: uma jovem no Paraguai (2009) e um idoso em Dourados (2012). Egon Schaden (1998) atestou sua presença desde a década de 40 no sul de Mato Grosso do Sul, sempre sob o disfarce de outros nomes: atsýygua, kambá’í, xaxim-taterê.
Segundo este autor o Jasy Jaterê se apresenta com um menino pequeno de suas pernas, igualzinho a um menino em todas as suas feições. O sinal de sua presença é um assobio que dá calafrios e estremece quem o ouve pelas estradas. Não se deve nunca arremedar ou duvidar da existência do Saci, pois ele pode aparecer para castigar com o seu bastão. Estão todos avisados!

REFERÊNCIAS E FONTES:
Cascudo, Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Ediouro, 1954.
CHAMORRO, Cândida G. A. Terra Madura, yvy araguyje. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2008.
SCHADEN, Egon. Aspectos fundamentales de la Cultura Guaraní. Assunción/Py: Universidad Católica, 1998.
seraguza, Lauriene. Cosmos, corpos e mulheres kaiowá e guarani: de Anã a Kuña. Dourados: UFGD, 2013.
IMAGENS:
SERAGUZA. Jasy Jaterê. Assunção, 2012.

Metadados:
Avarendy’i, Kamba’i, Jasy Jaterê, Lauriene Seraguza, Graciela Chamorro, Egon Schaden.


[1] Pesquisa e organização. Doutor em história da educação pela UFSCar. Karai Nhanderova’igua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com



domingo, 31 de março de 2019

MBÓI TU’Î: O DONO DOS PÂNTANOS.


mbói tu’î: o dono dos Pântanos.
Sousa, N.M.[1]
Este monstro legendário, serpente-papagaio, conhecido na literatura guarani do Paraguai, foi o segundo filho de Keraná, a deusa do sono, e Taú, o espírito do medo.
Tinha a forma de uma grande serpente com cabeça de papagaio e bico enorme. Está associado à Guyra Karuguá na cosmologia guarani e kaiowá, segundo o Valdomiro Aquino.
O poeta paraguaio de San Lorenzo, Narcizo Colmán (1937), registrou que Mbói Tu’î é o protetor dos animais aquáticos e anfíbios, a personificação humidade e do orvalho e o guardião das flores.
Sua cabeça é emplumada. A pele tem escamas. Sua língua é dividida ao meio e vermelha como sangue. Sua simples visão aterroriza aquele que tem a má sorte de cruzar seu caminho pelos pântanos. Emite um som aterrorizador que pode ser ouvido de muito longe.
Este mostro mitológico compõe a família dos sete filhos de Tau e Keraná. Tau era o neto de Pytajovái, divindade que levava em seu ventre o fogo da destruição e o ajudou a vencer a batalha de sete dias com Andatupyry, o espírito do bem. Após vencer o combate, raptou a jovem Keraná, gerando uma grande indignação em sua aldeia. Os parentes de Keraná rogaram a Arasy um castigo exemplar contra o raptor.
A deusa Arasy ouviu a indignação da aldeia do cacique Marangatu, pai de Keraná, e amaldiçoou a descendência de Taú que gerou sete filhos monstruosos: Tejú Yaguá; Mbói Tu’î, Moñai, Jasy Jateré, Kurupí, Aó-Aó e Jaguaretê Avá.
Os sete monstros foram derrotados com o sacrifício de Porãsy, sendo queimados vivos na caverna de Teju Jaguá. Após a morte de Porâsy, grande tristeza tomou conta da tribo de Sypavê, onde vivia. Em sua aldeia fizeram um poema para lembrar de seu heroísmo cada vez que seu espirito aparecia no firmamento como estrela da manhã, o planeta Vênus:
Nde yvága resa
Arasy memby
Reserõ reína
Okúiva ysapy
¡OKÚIVA YSAPY!

REFERÊNCIAS E FONTES:
GONZÁLEZ TORRES, Dionisio M. Mbói Tu’î. Folklore del Paraguay.
COLMAN, Narciso R. Ñande Ypy Kuéra. 1929.
NAyA. Diccionario de Mitos y Leyendas - Equipo. Buenos Aires. 2019.

IMAGENS:
Mitoys. Mbói Tu’î. 2019.

Metadados:
mbói tu’î, pântanos,



[1] Doutor em educação pela UFSCar. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com